segunda-feira, maio 10, 2004

FOLHA DE SÃO PAULO
São Paulo, domingo, 09 de maio de 2004

+ ciência

DIÁRIO MANTIDO EM SEGREDO PELA "ÚLTIMA NAMORADA' DO FÍSICO, JOHANNA FANTOVA, VEM À TONA EM PRINCETON E REVELA UMA PESSOA COMUM, PREOCUPADA COM A SAÚDE, COM O AMIGO ROBERT OPPENHEIMER E COM O PRÓPRIO IMPACTO NA POLÍTICA E NA CIÊNCIA

Retrato do gênio na terceira idade
Arquivo Associated Press



O físico Albert Einstein em sua casa em Princeton, dias antes de completar 70 anos de idade

Dennis Overbye
do "New York Times"

Em Princeton, ela era conhecida como a última namorada de Albert Einstein. Cortava seu cabelo, embora possa parecer chocante imaginar alguém mexendo naquela pequena auréola cósmica. Velejavam juntos, até os médicos lhe tirarem o barco. Iam a concertos juntos. Ele lhe escreveu cartas e poemas carregados com piadas e beijos. Telefonava várias vezes durante a semana, para conversar com ela sobre como havia sido o seu dia. Agora se descobriu que ela também tomou nota de tudo isso num diário. Em fevereiro deste ano, bibliotecários encontraram um manuscrito de 62 páginas no qual Johanna Fantova, uma ex-curadora de mapas da Biblioteca Firestone, de Princeton, 22 anos mais nova que Einstein, anotou suas reflexões, opiniões e reclamações sobre o último ano e meio da vida dele. Ela morreu no ano de 1981. "A não ser que uma descoberta similar seja feita no futuro, esse novo manuscrito da Biblioteca Firestone é o único diário que uma pessoa próxima a Einstein manteve, ao menos sobre essa fase final da vida dele", escreve Alice Calaprice em um artigo com a descrição do texto que será publicado neste mês na revista da Biblioteca de Princeton. Calaprice, ex-editora na Universidade de Princeton, está publicando os arquivos de Einstein.


Informações pessoais

Os originais escritos à máquina, em alemão, foram achados nos arquivos pessoais de Fantova por estudiosos em busca de informações pessoais para incluir num artigo de revista sobre os poemas que Einstein havia escrito para ela. Hoje estão na Biblioteca Firestone, à disposição dos acadêmicos. O diário faz uma espécie de retrato do gênio na terceira idade. De certa forma, o mais interessante nele é mostrar como Einstein era uma pessoa comum. "O diário fala basicamente sobre como os ossos dele doíam aos 80 anos e sobre quem foi visitá-lo", disse Donald C. Skemer, curador de manuscritos da Firestone (Einstein morreu em abril de 1955, aos 76 anos). "O segredo da teoria unificada dos campos não está ali", completa Skemer, fazendo referência às tentativas quixotescas de Einstein, no final da vida, para escrever uma equação capaz de explicar todas as forças da natureza. Freeman Dyson, físico e matemático do Instituto de Estudo Avançado de Princeton, no qual Einstein trabalhou durante 22 anos, chamou a descoberta de "retrato sem retoques de Einstein lutando bravamente com as inconveniências da idade e da doença". Einstein se compara a um carro velho, que tem problemas em todas as partes, reclama da sua má memória e do contínuo fluxo de visitantes -tantos que muitas vezes ele fingia estar doente, de cama, para não ter de posar para as obrigatórias fotografias. Entre seus visitantes, desconfiava do diplomata Adlai E. Stevenson, cuja conversa achava pomposa, e se referiu a outro visitante, o ganhador do Nobel de Física, fundador da mecânica quântica e chefe do projeto nazista da bomba atômica, Werner Heisenberg, como um "grande nazista". Einstein desdenhava abertamente da corrida nuclear e da cruzada anticomunista do senador norte-americano Joseph R. McCarthy. Ao ler certa vez que McCarthy suspeitava de subversão dentro de seu próprio comitê, Einstein comentou que o resultado seria semelhante ao da Revolução Francesa: "Ganha quem enforcar o outro primeiro". Ele se referia a si mesmo como um "revolucionário" político. "Ainda sou o Vesúvio cuspindo fogo." Einstein pôs o mundo a seus pés quando, em 1919, astrônomos britânicos observaram a luz se curvar em torno do Sol durante um eclipse, confirmando sua teoria da relatividade geral. Ele se tornou a principal -e talvez única- atração turística de Princeton em 1933, quando chegou à cidade, fugido da Alemanha nazista, com um séquito que incluía sua segunda mulher, Elsa, a filha dela, Margot, e sua secretária Helen Dukas, para assumir um posto no então recém-inaugurado Instituto de Estudo Avançado. Elsa morreu em 1936, mas houve mulheres na vida de Einstein antes e depois dela.


Na América, trabalho

Fantova, que nasceu em 1901 no que é hoje a República Tcheca com o nome de batismo de Johanna Bobasch, conheceu Einstein em 1929, de acordo com seu diário. (Seu marido, Otto Fanta, era filho de Otto e Bertha Fanta, anfitriões de um famoso salão em Praga, cujos convidados incluíam Einstein e Franz Kafka.) Einstein deu a ela o trabalho de organizar sua biblioteca pessoal e depois a levou para velejar em sua casa de verão em Caputh, na Alemanha.
Quando Johanna chegou a Princeton em 1939, ela anota no diário, foi questionada por Einstein sobre o que iria fazer: "Você sabe que vai ter de trabalhar, na América". Após estudar biblioteconomia na Universidade da Carolina do Norte, ela conseguiu trabalho na Biblioteca Firestone em 1944 e se tornou a primeira diretora de mapas da instituição, em 1952.
Seu relacionamento diário com Einstein parece ter começado no final da década de 1940 e prosseguido até a morte dele. Einstein estava com aproximadamente 70 anos anos, e ela, no início dos 50. "Ela estava sempre lá", disse Gillett G. Griffin, um curador aposentado no Museu de Arte da universidade que era freqüentemente convidado para jantar na casa de Einstein. Griffin disse acreditar que, para Einstein -que sentia falta da Europa pré-Segunda Guerra Mundial e que nunca se sentiu em casa em Princeton-, ela era parte do Velho Mundo. "Ela lia Goethe para ele", diz Griffin. "Era uma ligação com as coisas das quais ele sentia falta."
Após a morte de Einstein, em 1955, Fantova vendeu suas cartas e poemas, assim como uma pasta de fotografias, para Griffin, que as doou à Biblioteca Firestone. As cartas, abertas em 1996, não foram publicadas, embora acadêmicos as tenham lido na Firestone. Elas foram escritas principalmente durante as férias de Fantova em Long Island e estão recheadas de reclamações sobre dores, de acordo com Calaprice. Os poemas, muitos deles incluídos no diário de Fantova, são divertidos, cheios de trocadilhos e piadas à custa do próprio Einstein. Para Griffin, Einstein havia escrito os poemas com a finalidade de animar Fantova, a quem ele descrevera como tendo um "visão negra" da vida. Ninguém sabia que Fantova havia mantido anotações de suas conversas com Einstein. Ela escreve no diário que, primeiramente, resistiu à idéia de manter um diário, mas depois decidiu que tais "monólogos" deveriam ser preservados e publicados. "Eles deveriam servir para lançar luz adicional sobre o nosso entendimento de Einstein -não do grande homem que se tornou uma lenda em vida, não do Einstein cientista renomado, mas do Einstein humanista." Mas o diário nunca foi publicado, e, quando Fantova morreu, o manuscrito e o restante de seus papéis pessoais acabaram no arquivo pessoal de Fantova na biblioteca.


Casais famosos

Depois que as cartas de Einstein e os poemas foram abertos em 1996, a revista da biblioteca de Princeton conseguiu permissão da Universidade Hebraica de Jerusalém, que tem os direitos de publicação dos escritos de Einstein, para incluir os poemas em uma série de artigos sobre casais famosos. Na busca de informações sobre Fantova, Alfred Bush, curador aposentado da biblioteca, consultou os arquivos pessoais dela em fevereiro. Segundo Skemer, houve rumores sobre o diário durante anos. Quando soube da descoberta, lembra ter dito: "Espere aí, era disso que estávamos atrás".


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"Eu sou um homem completamente isolado, e, apesar de todo mundo me conhecer, há poucas pessoas que realmente me conhecem
"
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O diário de Fantova mostra altos e baixos da vida doméstica de Einstein. Em seu 75º aniversário, 14 de março de 1954, um papagaio foi enviado por um instituto de medicina em meio à enxurrada de presentes do mundo inteiro. Einstein gostou da ave, a quem chamou de Bibo, mas achou que o pássaro estava um pouco deprimido e tentou animá-lo contando piadas. Um ano depois, Bibo retribuiu os esforços adquirindo e transmitindo ao físico uma infecção. Einstein ficou preocupado, pois achava que as 13 injeções necessárias para curar o papagaio poderiam matar o animal, e ficou exultante quando o pássaro melhorou, após somente duas injeções. Einstein também estava preocupado com o destino de seu amigo J. Robert Oppenheimer, diretor do Instituto de Estudo Avançado e ex-chefe do esforço americano para construir a bomba atômica, durante a Segunda Guerra Mundial, que estava sendo atacado por suas inclinações tidas como esquerdistas. Oppenheimer acabou perdendo acesso a informações reservadas e foi defenestrado da Comissão de Energia Atômica. Sabendo que Oppenheimer conhecia mais de energia atômica do que qualquer outra pessoa, Einstein deu um novo nome à comissão: "Conspiração de Extermínio Atômico". Mas se chateava com Oppenheimer, que levava a situação muito a sério. "Oppenheimer não é um cigano como eu", disse a Fantova um dia. "Nasci com a pele de um elefante. Ninguém pode me machucar." Críticas, disse Einstein, passavam por ele como água.


Anacronismo vivo

No final, os diários relatam, Einstein estava preocupado com o fato de seu nome significar ao mesmo tempo muito e pouco para o mundo. Recusou um prêmio soviético pela paz, pois temia ser chamado de bolchevique, e também se recusou a escrever uma carta contra uma guerra preventiva com a China, dizendo que suas palavras não teriam efeito algum.
No campo da ciência, ele sabia que seus colegas o consideravam um anacronismo. Em 1953, a atenção tinha se transferido da relatividade geral para a física nuclear. Usando as estranhas leis da mecânica quântica, físicos modernos estavam partindo átomos, construindo bombas e descobrindo dúzias de novas partículas elementares. As revisões e mais revisões da sua teoria unificada dos campos pareciam cada vez mais abstrusas e irrelevantes a seus colegas físicos.
"Os físicos dizem que eu sou um matemático, e os matemáticos dizem que eu sou um físico", desabafou a Fantova. "Eu sou um homem completamente isolado, e, apesar de todo mundo me conhecer, há poucas pessoas que realmente me conhecem."